As políticas económicas
de Durão Barroso revelaram-se um “enorme fiasco”
e a decisão de apoiar a intervenção militar
no Iraque foi um “erro gravíssimo”. As críticas
são de José Sócrates que nesta entrevista ao
“Acção Socialista” acusa também
o Governo de errar quando menospreza as políticas de ambiente
e desinveste nos serviços públicos.
Decidido a não alimentar “debates antecipados”
sobre a liderança, deseja, no entanto, que o próximo
Congresso “tenha substância política”.
Em relação às próximas eleições
europeias, o ex-ministro socialista do Ambiente espera que elas
se transformem “num grande referendo europeu contra a guerra”
e se traduzam numa vitória para o PS.
Qual o balanço que faz destes dois
anos de Governo de direita?
Esse balanço já foi feito pelo Partido Socialista.
Ao longo destes dois anos houve um debate intenso com o Governo.
Agora este debate mudou de natureza porque já não
é um debate a dois, mas sim a três: nós, o Governo
e o povo. O povo é que vai fazer o julgamento desse debate.
É a este julgamento o Governo não pode fugir porque
todas as eleições são sempre uma forma de avaliação.
E nestes dois anos houve, fundamentalmente, duas questões
políticas principais: a governação económica,
onde cada vez é mais visível o grande fiasco, e a
decisão de apoiar a intervenção militar no
Iraque. Essa intervenção revelou-se um erro gravíssimo
para o mundo, para a Europa e para Portugal. Nestas duas questões
políticas o primeiro-ministro conduziu mal o país.
E concretamente, na área do ambiente,
qual é a sua avaliação?
O Ministério do Ambiente revelou-se num grande buraco negro.
É inacreditável como é que ao fim de dois anos
um ministério dinâmico e cheio de energia se transformou
num ministério paralisado, onde nada acontece, e que arrasta
os pés penosamente. Mas isso não acontece apenas por
causa da incompetência e da incapacidade do ministro do Ambiente;
isso acontece porque o dr. Durão Barroso decidiu não
dar expressão política nem prioridade às políticas
de ambiente. Ora isso é um erro gravíssimo para o
nosso desenvolvimento. Um erro que vamos pagar no futuro.
Atendendo a que foi o ministro responsável
pela realização em Portugal do Euro 2004, qual o seu
comentário ao posicionamento ambivalente do Governo face
ao evento?
O Governo aprendeu. Começou por ter as maiores dúvidas
e reservas quanto ao Euro 2004, a fazer-lhe críticas muito
pueris, próprias de quem não percebeu nada do que
estava em causa. O Euro 2004 não é um torneio de futebol,
é muito mais do que isso. É um grande acontecimento
que projecta internacionalmente o nosso país. Mas, finalmente,
o Governo acordou e parece estar a perceber a dimensão e
a importância do significado do Euro 2004. Ainda bem que assim
é. Todavia, não deixa de ser claro que com este Governo
não teria havido Euro 2004, nem teriam apostado nele, nem
ganho, nem se teriam interessado. Como não se interessam,
aliás, por nenhuma área na política desportiva.
Nós definimos como orientação que Portugal
devia ser um país capaz de realizar grandes eventos desportivos
internacionais. Foi nessa altura que ganhámos a realização
do campeonato do mundo de atletismo de pista coberta, do mundial
de ciclismo, do mundial de esgrima, da gimnoestrada, do master de
ténis, etc. Agora tudo parou, principalmente depois daquele
grande falhanço da regata em que o Governo tanto se empenhou.
É claro que lamento muito que tivéssemos perdido,
mas que verdade é que no passado ganhámos e desta
vez perdemos.
No entanto, passa a ideia que eles colhem
os louros do Euro 2004 e passam para os governos do PS o odioso,
nomeadamente a construção dos dez estádios.
Pois, mas a construção dos dez estádios não
um odioso, é bem necessário ao país. Portugal
tinha que fazer este trabalho. É também uma das críticas
mais infantis que tenho visto, a ideia de que se Portugal não
tivesse o Euro não tinha gasto dinheiro nos estádios.
Isso é uma argumentação própria de quem
é ignorante. Há muitos anos que o Estado português
gasta dinheiro nos estádios. Aquelas cadeirinhas que nós
vimos surgir e que foram postas no final dos anos 80 e princípios
dos anos 90, eram também pagas por dinheiro do Estado. O
Estado já estava a fazer investimentos de renovação
dos estádios. Acontece que, mesmo assim, os estádios
em Portugal não cumpriam as leis de segurança e conforto.
Tínhamos, portanto, que fazer esta modernização.
Podíamos era tê-lo feito em vinte anos; assim fizemo-lo
em cinco anos e com um grande retorno para a nossa economia. Ouvi
recentemente responsáveis pelo Euro dizerem que é
já claro, em relação ao que o Estado gastou
e ao que recebeu, que estamos perante um grande sucesso económico.
Como se posiciona, relativamente ao enfraquecimento
do serviço público, do sector público e da
revisão do sistema de protecção social?
Uma das marcas desta governação é o desinvestimento
nos serviços públicos, porque há um preconceito
ideológico contra o que é público. Mas a verdade
é esta: nem tudo pode ser feito com base apenas no mercado
e no interesse privado. A desvalorização da esfera
pública, a conotação do sector público
como um fardo que temos que suportar é um erro político.
O que nós temos obrigação de fazer é
melhorar os serviços públicos. Infelizmente, o Governo
em vez de os melhorar, com o seu discurso, contribuiu para o seu
declínio. Isso é muito negativo. Por outro lado, também
o abandono de uma certa política social progressiva que nós
implementámos, está bem visível naquilo que
são os principais indicadores quer de pobreza quer do agravamento
das condições sociais nestes dois últimos anos.
O Governo anterior foi o campeão das políticas sociais,
o que, aliás, está bem expresso naquilo que foi o
pulo que o país deu no indicador do Índice para o
Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Em seis
anos fomos o país que mais cresceu. Isto representa a consagração
internacional das políticas e do mérito dos governos
de António Guterres que foram marcados fundamentalmente por
um grande investimento na área social, o que muito honra
as tradições do Partido Socialista.
Despesismo, classifica a direita...
Essa classificação não tem apenas a ver connosco.
Há aqui um preconceito contra o investimento público
que já se viu no que deu. Mas a verdade é que nos
nossos seis anos de Governo sempre crescemos mais do que a Europa,
enquanto nestes dois anos do dr. Durão Barroso ainda não
crescemos um único ano mais do que a Europa. O que ele tem
às suas costas é isto: é o primeiro-ministro
que mais trimestres passou com crescimentos inferiores à
Europa. Depois, nos nossos seis anos tivemos uma redução
no desemprego, este primeiro-ministro é o campeão
europeu da subida do desemprego. É por isso que ele tem que
responder. A avaliação das políticas faz-se
em função dos resultados. Para além da retórica,
uma coisa o primeiro-ministro deve reconhecer: é que a sua
política económica foi um desastre.
O que espera das eleições europeias
e como classifica a natureza da coligação PSD/PP?
Espero que as eleições europeias tragam uma avaliação
destes dois últimos dois anos e ao mesmo tempo o reforço
daquilo que é uma aposta de Portugal num projecto europeu
que possa trazer uma Europa mais política e mais forte. Mas
este projecto europeu também tem a ver com a guerra no Iraque.
Espero que estas eleições se transformem num grande
referendo europeu à guerra. Os povos europeus têm agora
a oportunidade de manifestarem o seu ponto de vista relativamente
a uma das questões políticas que mais limitou, enfraqueceu
e dividiu a Europa. Nós queremos uma Europa autónoma
e com voz própria. Não queremos uma Europa seguidista,
uma Europa subalterna a quem digam o que deve fazer, isso não.
Podemos esperar destas eleições
o início de um novo ciclo político para os socialistas
em Portugal?
Estou convencido que sim. Nós vamos obter uma vitória,
o que é sempre bom para começar um ciclo em que vamos
ter muitas eleições. É uma boa forma de começar
os últimos dois anos da legislatura.
Qual é a avaliação que
faz do actual PS?
O PS passou um mau bocado, resistiu e está agora preparado
para disputar eleições estando à frente em
todas as sondagens. Isto não quer dizer que o PS não
tenha problemas para resolver. Mas deve resolvê-los no momento
indicado para isso que se chama Congresso Nacional. Espero que esse
Congresso permita ao PS um momento de afirmação capaz
de o projectar na sociedade portuguesa.
Como se posiciona dentro do partido, tendo
em conta que deixou de integrar a direcção da bancada
parlamentar mas mantém-se como membro do Secretariado Nacional?
Posiciono-me exactamente assim: membro do Secretariado Nacional.
Reconhece ou não a existência
em torno de si de um grupo que deseja vê-lo na liderança
do partido?
Essas matérias de liderança e de debates antecipados
são negativas para o partido. Eu não alimento isso.
Como gostaria então que se caracterizasse
o próximo Congresso que se realiza no final deste ano?
Gostaria de um Congresso que, como digo, marcasse a afirmação
do Partido Socialista e que nos permita encarar com optimismo os
combates políticos de 2005 e 2206.
Considerando que estamos no penúltimo
ano da legislatura, quais considera deverem ser as prioridades do
PS para as próximas legislativas?
É cedo para falarmos nisso. Agora estamos a falar nas europeias.
A definição do programa político deve ser debatido
no Congresso. É por isso que espero que o Congresso tenha
substância política.
Ideologicamente, como deve evoluir o socialismo
democrático no século XXI?
Deve manter-se fiel a si próprio. Ser uma corrente política
que visa, em primeiro lugar, defender a democracia e a liberdade,
mas que visa também um reforço da coesão social
e uma valorização do valor da igualdade enquanto elemento
determinante da coesão social. Julgo que do ponto de vista
ideológico essa matriz continua a ser muito inspiradora.
Outra coisa é o programa político. Em termos ideológicos,
se há alguma coisa que podemos dizer, é que houve
uma vitória da ideologia social-democrata. A compatibilização
do valor da liberdade com a procura de uma maior igualdade venceu
em toda a linha no século XX.
Poderão existir novas bandeiras para
o socialismo democrático?
Com certeza. O socialismo democrático para estar à
altura da sua história precisa de se reinventar e de se modernizar.
Essa é uma das nossas tarefas. A modernização
do nosso programa político. Ideologicamente, aquilo que são
as nossas referências políticas e culturais, não
me parece que necessitem de nada mais que não seja o de lá
irmos buscar inspiração para o nosso programa.
E na acção política,
não devem também ser introduzidas inovações?
Acho que sim. Há sempre um dever contínuo de melhorar
e de evoluir. Mas teremos oportunidade de discutir isso no Congresso.
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