RUI SOLANO
DE ALMEIDA
Portugal precisa avançar, económica,
social e tecnologicamente e colocar-se a par dos restantes
parceiros comunitários, num prazo que o Governo socialista
deseja possa ser cumprido até ao final da presente
legislatura. Instrumentos como o Programa Nacional de Acção
para o Crescimento e o Emprego (PNACE) e o Plano Tecnológico
vão ajudar o país a cumprir a Agenda de Lisboa,
aprovada em 2000 durante a presidência portuguesa da
União Europeia.
Para conhecermos melhor o que representam os diversos programas
e objectivos enquadrados na Agenda de Lisboa, adaptados à
especificidade nacional, no contexto do nosso futuro colectivo,
entrevistámos Carlos Zorrinho, o “senhor Lisboa”,
como é conhecido, por ser o responsável pela
implementação da chamada Agenda de Lisboa, tendo
também, sob a sua responsabilidade a condução
do Plano Tecnológico, cargo para o qual foi recentemente
nomeado.
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Numa altura
em que tanto se fala em plano tecnológico, plano de
crescimento e emprego, políticas de coesão social,
competitividade económica, entre outras iniciativas,
talvez fosse interessante explicar em que consiste a Estratégia
de Lisboa, documento-base de todas estas acções.
A Estratégia de Lisboa é a resposta política
e económica da União Europeia (UE) aos desafios
colocados pela globalização. Trata-se, no meu
ponto de vista, aliás corroborado pela esmagadora opinião
dos responsáveis políticos nacionais e da UE,
de uma resposta que se baseia na consideração
de que o projecto europeu é um empreendimento com uma
dimensão ética e humanista, e para que estes
valores possam ser salvaguardados a Europa tem que competir
essencialmente no âmbito da economia do conhecimento,
desenvolvendo os pilares da competitividade, da coesão
social e da sustentabilidade ambiental.
Por outro lado, a Estratégia de Lisboa é também
uma resposta levada a cabo com uma forte participação
do nosso país, onde a marca Portugal e a marca Lisboa
surgem com especial destaque. Trata-se, pois, de uma iniciativa
que nos associa, de forma positiva, a um novo impulso de desenvolvimento
do projecto de construção europeia.
A Estratégia de Lisboa foi aprovada
em 2000 por unanimemente. Porquê só agora se
começou a falar em Portugal desta iniciativa, quando
já passaram cinco anos desde que foi aprovada?
É verdade. Perdemos algum tempo. A Estratégia
de Lisboa foi aprovada no ano de 2000, numa altura em que
coube a Portugal a responsabilidade da presidência da
União Europeia. Foi, sem dúvida, uma situação
feliz, nomeadamente pelo facto de tão importante decisão
comunitária ter sido discutida e aprovada no nosso
país. Daí eu ter sublinhado que esta deliberação
comunitária está hoje indubitavelmente ligada
à marca Lisboa e ao nosso país no seu conjunto.
A Estratégia de Lisboa, recorde-se, previa que num
período de uma década a Europa se transformasse
no espaço de maior competitividade e coesão
social do mundo. Igualmente ficou estabelecido que a meio
de todo este processo se deveria proceder a uma avaliação
e a uma eventual revisão e actualização
de políticas e de métodos.
Quando nos referimos a este programa, estamos a falar de uma
ideia e de uma Estratégia de Lisboa relançada,
ou seja, trata-se neste momento de sublinhar uma nova abordagem
metodológica, com o mesmo tipo de princípios
e de linhas orientadoras, é certo, mas muito mais focalizada,
na preocupação e na tónica do crescimento
e do emprego e com outra dimensão ao nível da
coordenação.
De facto, e se quisermos, a nova Estratégia de Lisboa
implica também uma nova responsabilização
individual de cada país pelas políticas específicas,
um novo compromisso nacional para com esta “magna carta”
europeia, razão pela qual Portugal dispõe de
um coordenador nacional responsável pela aplicação
das linhas estratégicas aprovadas, empreendendo em
simultâneo a elaboração de um programa
particular que mais não é, com as especificidade
inerentes ao país, do que a consubstanciação
do que ficou determinado e estabelecido na Agenda de Lisboa.
Trata-se, com a designação que lhe quisermos
dar, do programa “Estratégia de Lisboa - Portugal
de Novo – Programa Nacional de Acção para
o Crescimento e o Emprego 2005/2208”.
Quanto ao facto de só agora, volvidos que estão
perto de cinco anos sobre a aprovação deste
programa, se começar a trabalhar na sua efectiva aplicação,
é uma questão que teremos que remeter para os
anteriores governos, sendo que o actual Executivo, dirigido
pelo primeiro-ministro José Sócrates, está
não só a assumir na totalidade as suas responsabilidades
em relação à Estratégia de Lisboa,
como a cumprir a promessa de colocar o país, num espaço
de três anos, com níveis de crescimento e de
emprego semelhantes aos registados nos restantes países
comunitários. Se a Agenda de Lisboa foi um projecto
que esteve cinco anos esquecido na gaveta a responsabilidade
não é certamente deste Governo.
A Estratégia de Lisboa assimila
um conjunto de princípios que são comuns a todos
os países da União Europeia. É um programa
que aponta, de facto, para a coesão e para o desenvolvimento
harmonioso do espaço europeu no seu conjunto. Compreende
contudo algumas especificidades de país para país?
É verdade. De facto, é exactamente destas especificidades
que estamos a tratar, quando refiro o Programa Nacional de
Acção para o Crescimento e o Emprego. Este é
o nosso manifesto nacional, a nossa perspectiva específica
para atingirmos os padrões de progresso delineados
e aprovados em 2000. Mas será útil recordar
que na primeira versão deste programa, aprovado na
capital portuguesa, havia linhas comuns e metas igualmente
comuns. Ou seja, a ideia era colocar no terreno um conjunto
de princípios e métodos que envolvessem todos
os países de modo a que os objectivos a atingir fossem
alcançados de forma harmoniosa e quiçá
simultaneamente.
Se é certo que as premissas aí estabelecidas
continuam a ser as mesmas, o que a Europa entretanto constatou
é que o grau diferente de desenvolvimento de cada país
aconselhava a que se olhasse de forma também diferente
para a metodologia a seguir. Nesse sentido, cada nação
optou pelo seu próprio modelo nacional, estabelecendo
prioridades nos métodos e nas políticas, tendo
em vista as especificidades com que cada país se debatia,
sem nunca perder contudo de vista o objectivo comum que esteve
na base da aprovação deste documento na capital
portuguesa: tornar numa década, o espaço comunitário
europeu no mais competitivo e socialmente justo do mundo.
A primeira versão da Estratégia
de Lisboa colocava todos os países no mesmo pé
de igualdade. O que é que entretanto mudou?
Essa foi a matriz inicial. Mas depressa todos nos apercebemos
de que o grau de desenvolvimento era bastante diferenciado
de país para país. Não era possível
pretender-se que todos chegassem ao mesmo tempo quando uns
estavam já bastante mais avançados do que outros,
quer ao nível da investigação e das tecnologias,
quer em políticas ligadas à problemática
do emprego ou de cariz social.
Foi portanto necessário rever o programa, sem o adulterar
e sem fugir dos seus objectivos essenciais, de forma a permitir
que cada nação fosse capaz de encontrar a nível
nacional os seus próprios caminhos e métodos.
Ou seja: na primeira versão da Estratégia de
Lisboa havia linhas e metas comuns. O programa apontava para
que começássemos todos ao mesmo tempo para que
também em simultâneo o pudéssemos dar
por concluído. A prática veio-nos mostrar posteriormente
duas coisas simples e que tudo aconselhava que não
fossem menosprezadas. A primeira constatação
é que havia países que já tinham arrancado
na execução de algumas das política ali
preconizadas, nomeadamente ao nível da economia do
conhecimento, e que se apresentavam por isso uns passos mais
à frente, e uma segunda razão, igualmente incontornável,
que nos mostrou que havia países que não conseguiam
aproximar-se das metas preconizadas, pelo menos tão
depressa quanto outros, tendo-se, nestes casos, optado, de
mote próprio, por uma abordagem de cariz mais conjuntural,
mais virada para o plano interno, abandonando-se assim, numa
primeira fase, as prioridades estabelecidas na Agenda de Lisboa,
e apostando-se mais em premissas de carácter mais nacional.
Por estas razões, a segunda fase de aplicação
do plano surgiu como um elemento fundamental, ou seja, foi
possível de introduzir a especificidades internas de
cada país na reorganização da Estratégia
de Lisboa. Mantém-se o conjunto de directrizes comuns
que foram estabelecidas pela União Europeia, mas agora
cada país sabe das suas particularidades e a forma
de encaminhar as suas próprias políticas para
alcançar no fim, o objectivo final inscrito na Agenda
de Lisboa.
O Programa Nacional de Acção
para o Crescimento e o Emprego (PNACE) é, em relação
a Portugal, a aplicação da Agenda de Lisboa,
com as especificidades que nos são próprias?
Exacto. O PNACE é um programa integrado, e que eu reforçaria
afirmando que é igualmente pragmático, programa
esse que Portugal vai desenvolver no contexto da UE, e que
visa preparar o nosso país face aos desafios colocados
pela economia e pela sociedade globalizada em que queremos
e teremos que competir.
Como afirmamos expressamente nos textos de apresentação,
o programa é por assim dizer um guia que aponta para
os termos em que nosso país pode e deve concretizar
uma estratégia nacional de reformas tendo em vista
a necessária modernização, quer do tecido
económico português, quer de áreas tão
significativas, como a sustentabilidade das contas públicas
ou do défice externo, a investigação
e desenvolvimento ou ainda a inovação, a concorrência
nos serviços, o emprego, a organização
do mercado de trabalho, a educação e a formação
ao longo da vida.
Pretende-se, com a aprovação deste programa,
mobilizar o sector púbico e os agentes privados com
o objectivo de se concretizar um conjunto de políticas
e de medidas concretas capazes de promoverem a credibilidade,
a confiança, a modernização e a coesão
consolidando desta forma a nossa economia e tornando-a cada
vez mais competitiva, num quadro social mais justo.
Com a aprovação do PNACE, estou certo, Portugal
poderá trabalhar em 2008 com um défice público
na ordem dos 2,8 por cento do PIB, com níveis de investimento
público que se prevêem possam duplicar até
ao final da legislatura, ou seja em 2009, criando condições
em simultâneo para que o investimento privado possa
igualmente triplicar, nomeadamente em investigação
e desenvolvimento (I&D).
Portugal é uma nação com uma fortíssima
identidade consubstanciada em valores que fazem de nós
um povo tolerante, aberto ao exterior e à descoberta.
Existem na nossa História colectiva muitos e variados
exemplos que atestam estas características que importa
valorizar confirmando uma afirmação de mudança
e de inovação que convém que assumamos
tendo em vista a nossa activa parceria nos novos paradigmas
económicos emergentes.
Pretendemos pois, com a aprovação deste programa,
voltar a colocar Portugal no centro do progresso e do desenvolvimento
à escala da União Europeia e global, promovendo
o crescimento e o emprego através da melhoria da qualificação
das pessoas, das empresas, das instituições,
dos territórios, onde há um trabalho bastante
profundo a desenvolver, no campo científico e no reforço
da atractividade e do reforço da coesão social
e ainda da qualidade ambiental. Se o conseguirmos, e eu estou
certo de que o vamos conseguir, Portugal será um país
mais moderno, progressivo e mais justo no final desta legislatura. |