Foi a madrugada “em que os corações
dos portugueses se alvoroçaram”, disse, acrescentando “o
dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio”,
recordando o poema de Sofia de Mello Breyner.
Durante 48 anos, lembrou o deputado socialista, vivemos “num
enclausurado silêncio” que se entrecortava com uma guerra
colonial que “devastava pela morte, pela mutilação
e pela doença” largos milhares de jovens portugueses, “mas
também muitos milhares de jovens guerrilheiros e simples cidadãos
africanos”.
Portugal sangrava em África os seus recursos humanos e financeiros, “vivíamos
num país esmagado pela fome e pela mais pesada miséria”.
A liberdade de opinião, de imprensa, de reunião ou
qualquer manifestação ou greve, sublinhou, eram realidades
proibidas e rapidamente reprimidas pelo poder indiscriminado da polícia
política. Centenas dos nossos melhores intelectuais e homens
de cultura, recordou ainda Osvaldo Castro, foram forçados
ao “penoso exílio” e afastados “compulsivamente” das
suas cátedras universitárias e carreiras académicas,
assim como milhares de jovens optaram por desertar ou mesmo não
aceitar serem incorporados com destino à guerra colonial.
Mas houve quem resistisse, “quem se tenha empenhado na luta
contra a opressão”, e que, por isso, “penou nas
prisões políticas” ou até, nalguns casos,
tivesse “sucumbido às balas ou aos maus tratos dos esbirros
do fascimo”.
Mas a democracia que hoje celebramos, disse ainda Osvaldo Castro,
só é “verdadeiramente democrática onde
todos os deputados são respeitados como legítimos representantes
dos que os elegeram e os direitos das oposições são
estimados”, disse, referindo-se indirectamente à recente
polémica levantada pelo líder do Governo madeirense
quando acusou de “bando de loucos” os deputados da oposição
daquela região Autónoma.
Passados 34 anos, frisou o deputado do PS, podemos dizer que Portugal é um
país que dispõe de uma Constituição democrática,
onde estão “lapidarmente inscritos os princípios
basilares da democracia”, onde se garantem os direitos fundamentais,
em que está assegurado o primado do Estado de Direito democrático,
consagrados o direito à opinião e expressão
livres, “mesmo quando avessas à democracia” e
onde se encontram “plasmados os direitos e garantias que enformam
o nosso regime democrático representativo e pluralista”.
Nesta democracia “paulatinamente consolidada”, observou
Osvaldo Castro, há também que salientar o papel crescente
da sedimentação e ampliação da autonomia
e dos poderes e atribuições das instituições
representativas do poder local e regional, “consagrados constitucionalmente” num
catálogo que se estende aos direitos fundamentais dos trabalhadores,
ao salário mínimo, ao direito à greve, à liberdade
sindical, ao direito pleno à segurança social, ao subsídio
de desemprego, às prestações sociais, às
pensões de reforma, ao rendimento social de inserção,
mas também à protecção na doença.
Pilares, sublinhou, “de um verdadeiro Estado Social que faz
transparecer a valorização dos direitos sociais e a
preocupação com a coesão social”.
Tudo isto, sublinhou ainda deputado socialista, que “são
diferenças por de mais relevantes”, no plano político
e social, “em confronto com os tempos da ditadura”, deve-se
em primeira instância “ao 25 de Abril e aos 34 anos que
já lhe sucederam”.
Sócrates reafirma necessidade
de chamar jovens à democracia
Também o primeiro-ministro, em declarações
no final da sessão solene aos jornalistas, disse concordar
na necessidade de aproximar mais os jovens da política e
do conhecimento da História, rejeitando, todavia, “as
visões pessimistas que em nada ajudam”.
Eu posso concordar, disse José Sócrates, com o Presidente
da República (PR), que, recorde-se, centrou a sua intervenção
num estudo onde se verifica o afastamento dos jovens relativamente à política,
algo que o primeiro-ministro considerou como “natural” uma
vez que, frisou, “os jovens têm muitas outras preocupações”.
Para o primeiro-ministro, mais importante ainda é apelar
a todos os jovens para que tenham “um maior optimismo e entusiasmo
em relação ao futuro do país”, porque
esta geração mais nova é aquela “que
pode contar com mais oportunidades de educação e
de vivência internacional”.
Em relação às palavras do Presidente da República,
também o primeiro-ministro disse que é tempo de se “acabarem
as previsões pessimistas que em nada ajudam”, não
deixando de concordar com as posições defendidas
por alguns analistas que têm vindo a alertar para as dificuldades
que aí vêm, frisando, contudo, que elas ocorrerão
sobretudo devido “à conjuntura internacional”.
A democracia precisa de novas ideias
Antes da intervenção do deputado socialista, tinha
usado da palavra o presidente da Assembleia da República,
Jaime Gama, que defendeu a “absoluta necessidade” da
criação de ideias políticas para a democracia,
justificando que esta responsabilidade “recai sobre os partidos
políticos e sobre os responsáveis públicos”.
Para Gama, é igualmente “indispensável” um
enquadramento institucional da língua portuguesa, com “uma
atribuição de recursos à altura da responsabilidade
da tarefa”, porque em sua opinião, como frisou, “não
há democracia sem ideias políticas”.
O regime democrático é, para o presidente do Parlamento,
um debate que “assenta na vertiginosa criação
de ideias”. Prosseguir o espírito de 25 de Abril é,
para Jaime Gama, “ser-lhe fiel e manter vivo em cada um de
nós o valor das ideias”.
Na opinião da segunda figura da hierarquia do Estado, os
tempos difíceis exigem, a par da qualificação,
transparência e seriedade da Administração
e dos titulares dos órgãos de soberania “como
factores essenciais”, sentido de “missão dos
responsáveis públicos em geral” para enfrentar “sem
tréguas” áreas de tão elevada complexidade
como o combate à criminalidade económica e financeira
e à corrupção.
R.S.A. |
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PS QUER CELEBRAÇÃO SOLENE
DO 25 DE ABRIL NO PARLAMENTO MADEIRENSE
A democracia só terá qualidade na Madeira quando
o 25 de Abril for celebrado solenemente na Assembleia Legislativa
Regional. Esta a principal mensagem deixada pelo dirigente
do secretariado nacional do PS e ministro dos Assuntos Parlamentares,
Augusto Santos Silva, no Funchal, durante o jantar/comício
socialista comemorativo dos 34 anos da Revolução
dos Cravos.
Na ocasião, Santos Silva recordou que as assembleias “representam
a diversidade, a pluralidade das opiniões dos partidos
e das forças políticas que constituem a sociedade”.
Mas, “uns não gostam do 25 de Abril, outros acham
um embaraço e uma perda de tempo prestarem contas no
parlamento, outros permitem insultar deputados eleitos”,
criticou, vincando novamente a ideia de que o 25 de Abril de
1974 “deve também ser celebrado em sessão
solene nas instituições políticas que
representam os cidadãos, na Assembleia da República
e nas assembleias legislativas regionais”.
Augusto Santos Silva disse ainda que “a democracia não
precisa de insultos, do desprezo pelos parlamentos e pelos
deputados, a democracia precisa, isso sim, do respeito recíproco
entre os vários partidos e as várias instituições”.
“Queremos liberdade em todo o país, que ninguém
tenha medo, também na Madeira, por votar desta maneira
ou daquela, queremos que ninguém sinta medo, que ninguém
se sinta ameaçado só por participar nas comemorações
do 25 de Abril, queremos que as pessoas possam escolher livremente
os seus empregos, os seus amigos, as suas opções
políticas e as suas preferências partidárias”,
concluiu, endereçando ainda o apoio do PS nacional à luta
dos socialistas madeirenses. |
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