Nesta Conferência, realizada
no passado dia 16 de Abril na sala do Senado, na Assembleia da
República, participaram, para além do primeiro-ministro,
que encerrou os trabalhos, o líder parlamentar do PS, Alberto
Martins, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís
Amado, o ex-comissário europeu, António Vitorino,
o deputado Manuel Alegre e as professoras universitárias
Raquel Seruca, investigadora do Instituto de Patologia e Imunologia
Molecular da Universidade do Porto e Maria Luísa Duarte,
da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Para José Sócrates, o Tratado de Lisboa constitui,
não só uma clara vitória do Partido Socialista,
mas também da “presidência portuguesa da União
Europeia, de Portugal e dos valores europeus”.
Trata-se, como sublinhou, de um enorme passo em frente na construção
sustentada da Europa contribuindo para acabar com o “estado
crítico” e o “impasse” em que a União
Europeia (UE) estava mergulhada.
Para Sócrates, a eventual perda de peso político de
Portugal na União Europeia, como consequência da aprovação
do Tratado de Lisboa, não corresponde à verdade, uma
vez que, como sublinhou, não se trata de perca de peso, mas
antes, de uma “questão de talento para negociar”.
Para o primeiro-ministro, com a assinatura na capital portuguesa,
em 13 de Dezembro passado do Tratado de Lisboa pelos 27, a Europa
concretiza o que eram os sonhos dos pais fundadores nos anos 50.
“Não se trata do fim da história”, disse, “até porque
deixei de acreditar há muito nos amanhãs que cantam”,
mas de “um marco na história” e de um “indelével
padrão civilizacional”. Este tratado, não só “responde às
necessidades dos povos europeus”, à sua economia e aos
muitos desafios que o “mundo nos coloca”, como deixa
a “Europa mais forte”.
Se mais não fosse, disse José Sócrates, a assinatura
do Tratado Lisboa justificava-se por três aspectos fundamentais,
nomeadamente pelo que encerra ao nível da aprovação
da Carta dos Direitos Fundamentais, que não é apenas
uma novidade mas a “concretização da luta de
muitos pelos direitos políticos, sociais e económicos” e
que materializa, de forma objectiva, “a nossa visão
de como nos queremos organizar”.
Mas também pelos novos mecanismos políticos aprovados
que tornam a gestão da UE mais eficiente, “já que
uma Europa a 27 é substantivamente diferente de uma Europa
a 15” e ainda pela assumpção colectiva dos novos
mecanismos na gestão da política externa”, problemática
disse, que muito poderá ajudar a Europa a “influenciar
a ordem mundial”.
Um marco da construção europeia
O líder parlamentar socialista, Alberto Martins, que abriu
os trabalhos, começou por defender o Tratado de Lisboa considerando-o “um
compromisso político de alcance decisivo para os portugueses
e europeus”, sublinhando que a União Europeia com
este tratado”realiza-se como uma comunidade política
mais social, coesa e solidária”, mas também
mais “respeitadora dos direitos dos Estados-membros”.
Para Alberto Martins, o novo tratado “introduz uma reforma
profunda do quadro institucional”, uma vez que o sentido
das alterações acrescenta “mais democraticidade
e maior transparência à vida política da União”.
Mas outras novidades são também admitidas neste tratado,
lembra ainda o líder parlamentar socialista, como a introdução, “pela
primeira vez”, do reconhecimento do direito de iniciativa
popular, incluindo a iniciativa legislativa, junto da Comissão
Europeia, “valorizando o estabelecimento do diálogo
social a nível comunitário e articulando instituições
europeias e parceiros sociais na conferência tripartida”.
Com efeito, defendeu Aberto Martins, a liberdade não é dissociável
das condições do seu exercício, donde o princípio
da coesão económica, social e territorial, “encontra
sede no tratado”, designadamente, como referiu, na “economia
social de mercado, no protocolo sobre os serviços de interesse
geral, na cláusula de solidariedade com Estados-membros
em caso de calamidade, mas sobretudo na Carta dos Direitos Fundamentais
da União Europeia e na adesão à Convenção
Europeia dos Direitos Humanos”.
Na opinião de Alberto Martins, o tratado oferece um novo
quadro institucional a partir do qual se poderá, com vantagem
desenvolver aquele que é “para nós socialistas
a conceito estratégico de desenvolvimento da Europa Social”,
já que um dos compromissos mais importantes deste tratado
refere-se ao dossier da justiça social “algo que nos
distingue e distingue o espaço europeu”.
Imperativo estratégico
O deputado e vice-presidente da Assembleia
da República,
Manuel Alegre, não deixando de encarar como absolutamente
necessária a permanência de Portugal no seio da União
Europeia, de modo a estar, como disse, no “centro da decisão
europeia” participando de forma activa da construção
da União Europeia e na definição das novas
respostas colectivas aos problemas que “hoje nos são
colocados”, como a globalização, as alterações
climáticas, a energia e as migrações, considerou
que a questão da dependência de Portugal em relação
a Bruxelas pode levar o país “a perder peso na UE” ou
a ficar condenado “à irrelevância institucional” devido,
como sublinhou, “à alteração de equilíbrios
dentro da instituição, a favor dos Estados-membros
mais populosos”.
Para Alegre, Portugal, com o Tratado de Lisboa, “volta a
perder peso”, apesar de se tratar, como acrescentou, “de
uma perda marginal”, lembrando que a Alemanha passará a
pesar 16,75 por cento do total dos 27, “o dobo dos 8,4 por
cento que tinha hoje com o sistema de votos ponderados”,
enquanto que Portugal, país de média dimensão, “passará de
3,74 por cento para 2,14 por cento”.
Assumindo-se “sem complexos”, como frisou, por ter
uma visão “soberanista e patriótica”,
rejeitou a hipótese de Portugal se deixar “condenar à irrelevância
dentro da União Europeia”, dizendo acreditar antes
na necessidade do país ter “voz própria na
Europa e no mundo”.
No final da sua intervenção, o deputado socialista
não deixou de classificar como positivos alguns aspectos
do novo tratado, destacando entre eles os que conferem valor jurídico
vinculativo à Carta dos Direitos Fundamentais e o reforço
do papel dos parlamentos nacionais que passam a ficar associados
ao controlo da boa aplicação do princípio
da subsidiariedade.
A União Europeia
ficou mais forte
Tanto António Vitorino como o ministro dos Negócios
Estrangeiros, Luís Amado, se referiram ao Tratado de Lisboa
como um passo decisivo na construção europeia.
Para o ex-comissário europeu, o novo tratado deixa sobretudo
uma marca de maior profundidade na integração da
UE, não deixando, por outro lado, de reforçar também
o que há muito vinha a ser exigido no seio da UE quanto
a novas políticas de gestão mais sustentadas e eficazes.
Decorre, disse António Vitorino, que o Tratado de Lisboa, “encerra
um vasto conjunto de políticas há muito reivindicadas
pelos mais variados países”, nomeadamente no que respeita
a uma maior participação de todos os Estados-membros,
quer no lançamento de políticas ligadas à imigração,
problemática que tem constituído, como sublinhou,
uma dificuldade acrescida com toda a carga daí decorrente
relacionada com a imigração clandestina e a legalização
de estrangeiros, mas também encarando de frente os problemas
com a segurança comum e a criminalidade organizada transnacional.
Para Vitorino, o Tratado de Lisboa consolida não só as
preocupações e os interesses de todos os Estados-membros,
quer em relação às questões ambientais,
climáticas, energéticas, mas igualmente em domínios
ligados às políticas de carácter social, razão
porque considera “injustas” as críticas que
menosprezam os objectivos alcançados pelo Tratado de Lisboa.
O titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, por seu lado,
recordou que o Tratado de Lisboa não impede, antes pelo
contrário, que sejam os diversos Estados-membros a ter a
palavra decisiva na construção da Europa, recordando
que todos os ajustes são possíveis, nomeadamente “através
das revisões do tratado”, sublinhando que o documento
consolida o princípio fundamental de “respeito pelas
constituições de cada Estado-membro”.
Depois de se referir ao “relevante” papel que desempenhará o
futuro alto-representante para os Negócios Estrangeiros
e Política de Segurança, com a possibilidade de “uma
maior definição do papel estratégico europeu”,
Luís Amado sublinhou que em relação às
novas políticas comuns de Segurança e de Defesa o
que está por determinar, disse, é se Portugal “quer
ou não participar no pelotão da frente da Defesa
e Segurança europeia, como participou no euro”.
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