OPINIÃO
     
   

CULTURAS ENERGÉTICAS

Neste momento, uma das melhores apostas para o nosso país será o recurso a plantas oleaginosas, para fabrico de biodiesel, dada a nossa enorme frota de motores diesel, bem como pelo facto da produção de cereais dever ser preferen­cialmente utilizada na alimentação humana e animal
     

Jorge Almeida
Deputado do PS

 

Vivemos um período crucial de reorientação dos países para fontes energéticas mais limpas, alternativas aos combustíveis fósseis. São as renováveis a crescer e consolidar o seu caminho. E o nosso Governo, antecipando as metas da UE em dez anos, está na linha da frente. Incentivando a agricultura e os agentes transformadores através da isenção de ISP.
Para além da água, do sol e do vento, são sem dúvida os biocombustíveis um dos motores para uma nova economia energética em Portugal, que compreende várias e complexas variáveis.
Antes de mais a ambiental. É hoje unânime o consenso sobre a eficácia dos biocombustíveis no combate aos gases de efeito estufa (GEE), dada a redução de emissões que a substituição dos combustíveis fósseis proporciona.
A agrícola, onde vários imputs deverão ser considerados . Possibilidade de se aumentar a produção de cereais e oleaginosas, disponibilidade de terrenos do RPU e set aside, os preços convidativos, resultantes de rarefacção da oferta nos mercados, o aumento do rendimento dos agricultores, fixação das populações nos territórios.
A variável energética, uma vez que os biocombustíveis permitem reduzir a importação de petróleo, e a pesada factura na balança de pagamentos.
Em graus variados, todos os biocombustíveis apresentam um balanço energético positivo.
Mas é interessante apreciar alguns dados sobre o gasto em combustíveis fósseis para se produzir etanol ou biodiesel, assim como os ganhos na redução de GEE quando se queimam estes biocombustíveis.
Para se fazer 1,3 litros de etanol a partir do milho, gasta-se um litro de gasolina, mas durante a combustão desse mesmo etanol são emitidos menos 21% de GEE.
Quando se usa cana-de-açúcar, aí pode produzir-se etanol puro com 113 octanas, numa relação de um litro de gasolina para oito litros de etanol e na sua combustão poupamos cerca 56% de gases.
Mas se for possível reproduzir à escala industrial o que se conseguiu em laboratório, poderemos vir a ter nos biocombustíveis de segunda geração a grande solução para este sector. Poderão vir a utilizar-se folhas, ramos, restolho das matas, e conseguir-se uma relação de gasolina para bioetanol de um para 30, com uma redução brutal dos GEE de perto dos 90%.
Neste momento, uma das melhores apostas para o nosso país será o recurso a plantas oleaginosas, para fabrico de biodiesel, dada a nossa enorme frota de motores diesel, bem como pelo facto da produção de cereais dever ser preferencialmente utilizada na alimentação humana e animal. O biodiesel tem também uma boa relação de poupança energética. No nosso país está em fase experimental, mas tem boas condições de forte expansão sobretudo com a cultura do girassol, na qual os agricultores já adquiriram experiência em anos passados.
Pela primeira vez na história, a energia parece concorrer directamente com a alimentação humana e animal, podendo estar aí uma das razões da subida de preços.
A UE apenas utilizou em 2007, 2% dos seus cereais para etanol. Mas os USA chegaram aos 13%.
Mas há outras variáveis mais relevantes a ter em conta. As alterações climáticas. Secas e chuvas destruidoras, em países determinantes para o abastecimento mundial. O consumo crescente em economias emergentes como a China e a Índia. O gigante chinês que era auto-suficiente em 2000, e que em 2007 já importou 400 milhões de toneladas de cereais para alimentação.
A questão dos OGM. A aprovação de novos eventos pela FDA, imediatamente cultivados nos USA, Canadá e Brasil, e que as instâncias burocráticas da UE demoram anos a aprovar, apesar de aceitarem a importação de carne alimentada com esses mesmos OGM.
A entrada de fundos de investimento no negócio das matérias primas, esses sim talvez a componente mais desequilibradora e desreguladora dos mercados, através de movimentos especulativos.
Mas a previsão, avaliadas todas estas variáveis, é a da manutenção, a curto e a médio prazo, duma carência relativa destes produtos agrícolas, e da manutenção em alta dos preços. Há por isso uma grande oportunidade para a agricultura portuguesa.