OPINIÃO
     
   

A questÃo da seguranÇa alimentar na ordem do dia

O aumento na utilização dos cereais a nível mundial, desde 2000, foi de 5% para consumo humano, 8% para alimentação animal e 35% para biocombustíveis
     

Miguel Freitas
Presidente do PS Algarve
Coordenador de Agricultura na REPER Portugal junto da UE


 

A questão da segurança alimentar voltou à actualidade política, com a fulgurante subida dos preços dos cereais e o impacto nos mercados dos produtos alimentares, o agravamento da situação alimentar mundial e a crescente tensão social em muitos dos países em desenvolvimento.
Durante duas décadas os alimentos contribuíram de forma decisiva para manter a inflação controlada, entre 2 e 4%, já que os preços ao consumidor se situaram sempre abaixo da inflação. Nesse período, o trigo e o milho perderam mais de 50% do seu valor.
Nestes dois últimos anos, os preços do milho e do trigo mais que duplicaram e o arroz subiu 30%. Essa subida tem vindo a reflectir-se no aumento do custo dos alimentos, que pode este ano atingir os 4.5%, valor mais alto desde o início dos anos 70.
Redução da produção (-2.1%) e dos stocks a nível mundial (-15%) e, particularmente, nos principais países exportadores (-6.9% e -52%, respectivamente), aumento dos custos dos combustíveis e energéticos, com reflexos em toda a cadeia de transportes, sobre os fertilizantes, pesticidas e outros inputs agrícolas, com o consequente aumento dos custos de produção, contribuíram do lado da oferta para a subida dos preços.
Do outro lado, cresce o consumo alimentar, resultado da melhoria de rendimentos em diferentes zonas do globo (Ásia e África aumentaram 9% e 6%, anualmente, entre 2004 e 2006) e altera-se a estrutura da procura nos países emergentes, em particular na China e na Índia (onde cresce o consumo de carne), a requerer uma maior utilização de cereais para produção animal. O aumento na utilização dos cereais a nível mundial, desde 2000, foi de 5% para consumo humano, 8% para alimentação animal e 35% para biocombustíveis.
A utilização de matérias-primas agrícolas para fins energéticos, de forma directa ou indirecta, agravou a pressão sobre os preços dos bens alimentares. A UE triplicou o uso de cereais para biocombustíveis nos últimos dois anos, mas tal representa apenas 1% da produção. No caso do programa norte-americano, é mais sensível o impacto no mercado, já que cerca de 50% da produção de milho foi desviado para bietanol.
Para tornar a situação pior, alguns dos maiores produtores de cereais introduziram quotas de exportação (Índia, China, Rússia, Egipto, Casaquistão, Argentina, Malásia e Paquistão) e alguns grandes importadores, em pânico, compraram mais. Dos 58 países analisados pelo Banco Mundial, 48 impuseram ou controlos de preços, ou subsídios aos consumidores, ou restrições às exportações ou baixaram as tarifas.
Para além disso, os cereais tornaram-se um mercado atractivo para fundos de investimento. Nos últimos seis meses, os futuros das matérias-primas agrícolas, sobretudo trigo e milho, têm tido fortes subidas (50% e 40% de crescimento, respectivamente), batendo sucessivos recordes.
Do que fica dito, percebe-se porque está o mercado de cereais em ebulição. Se tudo correr bem, os agricultores vão responder à alta dos preços produzindo mais e um novo equilíbrio vai ser estabelecido. Num curto espaço de tempo a produção voltará de novo a ser suficiente e os stocks serão repostos nos principais países exportadores. Mas a era da alimentação barata acabou. Entrámos num novo ciclo, a justificar novas escolhas no domínio das políticas agrícolas e energéticas, de apoio ao desenvolvimento (para cumprir os objectivos do Milénio da ONU até 2015) e no comércio mundial (para que seja mais justo e equilibrado). E a questão da segurança alimentar mundial está na ordem do dia.