
Miguel Freitas
Presidente do PS Algarve
Coordenador de Agricultura na REPER Portugal junto da UE
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A questão da segurança alimentar voltou à actualidade
política, com a fulgurante subida dos preços
dos cereais e o impacto nos mercados dos produtos alimentares,
o agravamento da situação alimentar mundial
e a crescente tensão social em muitos dos países
em desenvolvimento.
Durante duas décadas os alimentos contribuíram
de forma decisiva para manter a inflação controlada,
entre 2 e 4%, já que os preços ao consumidor
se situaram sempre abaixo da inflação. Nesse
período, o trigo e o milho perderam mais de 50% do
seu valor.
Nestes dois últimos anos, os preços do milho
e do trigo mais que duplicaram e o arroz subiu 30%. Essa
subida tem vindo a reflectir-se no aumento do custo dos alimentos,
que pode este ano atingir os 4.5%, valor mais alto desde
o início dos anos 70.
Redução da produção (-2.1%) e
dos stocks a nível mundial (-15%) e, particularmente,
nos principais países exportadores (-6.9% e -52%,
respectivamente), aumento dos custos dos combustíveis
e energéticos, com reflexos em toda a cadeia de transportes,
sobre os fertilizantes, pesticidas e outros inputs agrícolas,
com o consequente aumento dos custos de produção,
contribuíram do lado da oferta para a subida dos preços.
Do outro lado, cresce o consumo alimentar, resultado da melhoria
de rendimentos em diferentes zonas do globo (Ásia
e África aumentaram 9% e 6%, anualmente, entre 2004
e 2006) e altera-se a estrutura da procura nos países
emergentes, em particular na China e na Índia (onde
cresce o consumo de carne), a requerer uma maior utilização
de cereais para produção animal. O aumento
na utilização dos cereais a nível mundial,
desde 2000, foi de 5% para consumo humano, 8% para alimentação
animal e 35% para biocombustíveis.
A utilização de matérias-primas agrícolas
para fins energéticos, de forma directa ou indirecta,
agravou a pressão sobre os preços dos bens
alimentares. A UE triplicou o uso de cereais para biocombustíveis
nos últimos dois anos, mas tal representa apenas 1%
da produção. No caso do programa norte-americano, é mais
sensível o impacto no mercado, já que cerca
de 50% da produção de milho foi desviado para
bietanol.
Para tornar a situação pior, alguns dos maiores
produtores de cereais introduziram quotas de exportação
(Índia, China, Rússia, Egipto, Casaquistão,
Argentina, Malásia e Paquistão) e alguns grandes
importadores, em pânico, compraram mais. Dos 58 países
analisados pelo Banco Mundial, 48 impuseram ou controlos
de preços, ou subsídios aos consumidores, ou
restrições às exportações
ou baixaram as tarifas.
Para além disso, os cereais tornaram-se um mercado
atractivo para fundos de investimento. Nos últimos
seis meses, os futuros das matérias-primas agrícolas,
sobretudo trigo e milho, têm tido fortes subidas (50%
e 40% de crescimento, respectivamente), batendo sucessivos
recordes.
Do que fica dito, percebe-se porque está o mercado
de cereais em ebulição. Se tudo correr bem,
os agricultores vão responder à alta dos preços
produzindo mais e um novo equilíbrio vai ser estabelecido.
Num curto espaço de tempo a produção
voltará de novo a ser suficiente e os stocks serão
repostos nos principais países exportadores. Mas a
era da alimentação barata acabou. Entrámos
num novo ciclo, a justificar novas escolhas no domínio
das políticas agrícolas e energéticas,
de apoio ao desenvolvimento (para cumprir os objectivos do
Milénio da ONU até 2015) e no comércio
mundial (para que seja mais justo e equilibrado). E a questão
da segurança alimentar mundial está na ordem
do dia.
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